August slipped away
Carta a August.
Talvez isso nunca encontre você - e, por mim, melhor ainda -, mas tenho em mim a necessidade de dizer tudo aquilo que não pude verbalizar diretamente a você, com a plena certeza de que muito do meu medo interferiu, mas muito do seu também.
Se fôssemos cartas de tarot, ambos seríamos A Torre. Tão imersos em nós, em nossos sentimentos, tão fugidios. Ao mesmo tempo, nossos baralhos não seriam os mesmos, porque enquanto a minha Torre me coloca em um lugar de acolhimento para com os outros e distanciamento de mim, a sua faz o oposto, adicionando tijolinhos à minha.
A bem da verdade, meus tijolos foram adicionados em nossa última real não-conversa: aquela em que você disse não querer responsabilidade, culpa ou qualquer sentimento que pudesse advir do fato de se importar com os efeitos do modo como tem agido.
Defensivamente, eu respondi que "nunca pedi para você se sentir culpado", mas o que eu realmente queria ter dito, tido mais tempo, tido espaço, tido acolhimento, é: pontuar coisas que me tornam desconfortável não é uma tentativa de colocar em você a responsabilidade porque, a bem da verdade, eu estive tirando-a de você por um longo tempo.
O que eu queria era justamente o oposto: o processo de solidificar a base, de entender - assim como eu vim me esforçando para fazer com você - quais são os meus limites e como não ultrapassá-los. A sua resposta, tão imediata e tão não-aberta-a-escutas-sinceras, foi um destruir de escadas (A Torre, lembra?): ainda que eu estivesse disposta a ceder e a me importar genuinamente com você, você não faria o mesmo.
Confesso que você me confunde - em uma de nossas conversas, você pontuou que prefere demonstrar por ações, mas o que fazer quando essas são ambivalentes? Em um momento você é a pessoa gentil e reconfortante, e em outro é a materialização da montanha russa que eu conheci por toda a minha vida e não mais quero embarcar.
Você diz não querer se importar, mas se importa. Você canta sobre buscar sentimentos, mas foge dos mesmos. Você escreve sobre as pessoas, mas as trata como outras coisas (porque pessoas tem sentimentos que devem ser considerados, e o vai-e-vem é um movimento que só não compromete marionetes)
De alguma forma, você encontra paz em meio a esse caos. E eu perco minutos, vários, do meu dia redimensionando o espaço que a princípio lhe cabia, mas que hoje você decide ocupar quando (e sinto muito, mas essa é a percepção adquirida pelas suas - olha só! - ações:) não tem nada melhor para fazer.
Você não foge de conversas rasas e não hesita em ocupar sempre a segunda fileira, e é por isso, August, que sinto que, lentamente, essa relação não mais me cabe. Eu não quero conversas rasas - tenho um largo continente de pessoas presentes para isso - e eu não "signed" para isso quando nos conhecemos e conversamos sobre desejos, conexões e buscas.
Eu não quero me abrir para alguém não disposto a ouvir. E em termos de conversar com paredes, prefiro as de concreto.
Eu disse que estaria presente pelo tempo que pudesse e conseguisse, e foi o que eu fiz. Luto, agora, contra o zíper do terno que vestia: uma camada de cuidar de você, duas de afeto, outra de vontade. As mãos trêmulas dificultam o ato de me despir, e por um momento questiono se devo mesmo fazê-lo, mas sei que sim.
Talvez ele me sirva novamente quando você não estiver tão confuso. Talvez ele me sirva novamente quando você, com seus anos de relacionamento na bagagem, aprender que não podemos medir todas as pessoas com a mesma fôrma. Talvez ele me sirva, algum dia, quando eu não precisar me redimensionar como uma amoeba.
Ou talvez ele nunca mais me sirva, mas por um momento ele me foi acolhedor: quente, macio, confortável. Talvez minha roupa favorita. E, como toda roupa favorita, uma hora elas se tornam pequenas demais.
É um terno bonito, não? Sempre reconhecerei isso e sorrirei para ele.
E só.
Agora, August, sinta-se livre para slip away like a bottle of wine.
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