Tu vens...
Ela veio em uma manhã de quinta-feira.
Não.
Ela veio em uma tempestade de quinta-feira.
O sol brilhava lá fora, mas em mim chovia -- chovia uma garoa fria, capaz de adoecer até mesmo aqueles que sequer vivos estavam para se molhar. O sol brilhava lá fora, o sol brilhava nela, e ela soprou em minha direção a brisa leve das paixões que vêm de dentro, para citar Alceu.
Alceu, tu não me dissestes que ela vinha. Eu soube que ela chegaria, mas não que ela seria Ela.
Não reclamo: melhor foi.
Tivesses anunciado, eu teria me preocupado com artifícios e trejeitos e palavras. Tivesses anunciado, eu teria me preparado para a chegada, e aí a surpresa estampada em minha pele ao ser surpreendida pelo entrelaçar de dedos teria significado menos.
Tivesses anunciado, eu não estaria escrevendo para dar vazão - porque cada instante ao seu lado é pouco, ao passo que a distância é menor ainda.
Distante do eu-lírico da canção, eu não me atentei aos sinais. Eu não percebi quando a garota sem voz se tornou algo a mais para ela. E não foi até ela me beijar no estacionamento (calma, era um lugar aberto! Tomás Antonio Gonzaga ficaria orgulhoso) que eu percebi que não há um universo em que eu queira ser só amiga da mulher que agora me faz ler Clarice como quem lê a bíblia.
Eu não escutei os sinais, Alceu. E você nada anunciou.
Melhor assim.
Melhor é encantar-se pelas primeiras vezes.
Há quatro dias, todo dia é dia primeiro. E todo dia eu me encanto.
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