Sobre laços familiares

Dia desses, enquanto caminhava pela praia e conversava com a minha namorada, chegamos à conclusão do quão difícil deve ser não ter um único familiar presente. 

No momento, versávamos sobre a veterinária que atende meus cachorros e coincidentemente tornou-se amiga da família: após ter crescido sem pai, se viu enterrando a própria mãe graças ao vírus apelidado de "gripezinha" pelo inominável que se denomina presidente do país. 

Concordamos que a solidão pode ser avassaladora e que família é importante. Nenhuma de nós saberia o que fazer caso fôssemos privadas daquela única pessoa. Para ela, que havia crescido próxima de pai, mãe, avó e irmã, essa possibilidade era um pouco mais distante. Para mim, que havia crescido somente com a minha mãe, não. 

E aqui entra a reviravolta. 

Minha mãe me criou. Dentre os modelos familiares brasileiros, ainda que um contrato determinasse que ela era casada e que nós (meu irmão e eu) tínhamos um pai, nossa família sempre foi composta por uma mãe solo e seus dois filhos. Após os meus treze anos, mãe solo e uma filha, haja vista que meu irmão mudou-se para outro Estado. 

Ela me ensinou a ser gentil e a ouvir as pessoas. Também sempre bateu na tecla do quão importante era ser honesta: conferir o troco, o dinheiro, não omitir informações importantes e falar a verdade por pior que fosse. 

Ela também me ensinou que não podemos viver a vida inteira presa pela opinião alheia. Essa não é uma postura que ela, em específico, adote, mas foi vendo-a aprisionar-se na teia de expectativas que decidi não trilhar o mesmo caminho 

Também foi observando-a que decidi não sacrificar a minha felicidade para que outros ficassem mais confortáveis. Ela sempre comenta que jogou sua juventude no lixo, e não quero que o mesmo ocorra com a minha.

Minha mãe me ensinou muitas coisas - menos uma. 

O orgulho que hoje sinto de quem eu sou, por inteiro, não veio totalmente dela. 

Para minha mãe, amar outra mulher é uma vergonha. Para mim, é natural. 

Minha mãe continua sendo minha mãe, mesmo que ela não se sinta assim. E eu continuo sendo grata por todas as coisas que ela me ensinou, ainda que hoje ela diga que falhou na maternidade por ter um filho que não se lembra se ela está viva, e outra que é uma desgraça. 

Talvez um dia nós nos encontremos no meio do caminho - agora sendo honesta sobre quem sou. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Virginia Wolf encontra Taylor Swift (e tomamos café)

Wislava estava certa ao escrever que a vida é

August slipped away