ao Leo

 Meu irmão demorou dois anos para assumir a namorada.

Meu irmão, um homem heterossexual, branco e de classe média conheceu a atual (e única) esposa quase uma década atrás. Começaram a flertar a relação acabou evoluindo: tornaram-se namorados, amantes, companheiros. 

Por dois anos, os dois primeiros anos, sempre que saía com ela após o trabalho, ele ligava e dizia que veria um amigo. Se arrumava, faltava aula na faculdade, ficava fora de casa até três da manhã, se entupia de perfume, fazia dívidas irresponsáveis porque queria prover do bom e do melhor sem ter a menor consciência do quanto poderia e deveria gastar.

Meu irmão. 

Eu, dois meses após conhecer a atual (e única) pessoa com a qual me vejo casando e dividindo a cama, o apartamento, as plantas, os livros, as roupas e as esperanças pelas próximas décadas, me vi doente por não compartilhar com a minha família sobre a minha relação.

Os contextos em muito se diferem: meu irmão é hétero; eu, não. Minha mãe riu e se perguntou o que o levou a esconder aquela relação, ao passo que me ofendeu e disse não querer participar dessa parte da minha vida. Para ele, teria sido muito mais fácil assumir uma relação quando nos estágios iniciais. 

Sempre me pego analisando isso e pensando: Leo, como você conseguiu?

Como você conseguiu passar mais de quinhentos dias sem compartilhar que você havia encontrado a pessoa com quem você se casaria? Você sentiu vontade de nos contar sobre a sua namorada? Você sentiu vontade de descrever quão feliz estava? Você quis que mamãe a conhecesse? Você quis momentos em família? 

Como você não ficou nauseado, trêmulo e ansioso, pensando em como seria quando todos se conhecessem? Como você conseguiu esconder que algo maravilhoso havia acontecido - ou melhor, que alguém havia acontecido? Como você caminhou dias a fio como se a sua vida fosse a mesma? 

Porque a minha não é. 

No primeiro fim de semana que estivemos juntas, muito antes de eu considerar que a minha colega de trabalho seria também o amor da minha vida, eu cheguei em casa e contei sobre ela. Disse que havia a convidado para se arrumar aqui em casa, caso ela quisesse ir a um festival. Disse que ela era bonita e gentil, e que a partida da minha melhor amiga não eclipsava a alegria de recebê-la. 

Sempre que eu podia, eu contava algo sobre a Jô. Sobre a nossa ida à praia, sobre cozinharmos juntas, sobre nos indignarmos com comentários absurdos, sobre a cumplicidade. 

Ainda hoje, sabendo que minha mãe não apoia quem eu sou, lamento profundamente não poder continuar a dizer a ela quão feliz fico perto da pessoa por quem me apaixonei. 

Então, Leo, como você conseguiu? 

Talvez seja eu, típica sáfica emocionada, que não consiga guardar pra si a grandiosidade da pessoa que amo. Mas, sério, como você conseguiu?

Acordar e não celebrar a pessoa que você ama é adoecedor. Eu que o diga.


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