coming-out-letter.

Leo,
Você se lembra como eu sempre perguntava se, na sua época, as coisas eram iguais? Se a mamãe reagia do mesmo modo, se você tinha mais liberdade, se...? 
Eis uma pergunta também retroativa: como você aguentou, por mais de um ano, esconder uma relação?
Talvez, para você, fosse só esconder com quem estaria e onde iria, sem grandes questionamentos. Talvez fosse essa a sua forma de ser livre e de sentir que tinha algum controle. 
Pra mim, é o oposto. 
Se não me engano, dois ou três anos atrás perguntei qual seria a sua reação caso você tivesse um filho/filha que não fosse hétero e você respondeu que ninguém gostaria de ter uma desgraça dessas na família. 
Naquela noite, eu havia pensado em contar a você que eu não sou hétero, mas não o fiz. Em vez disso, te repreendi e disse que jamais deixaria um sobrinho ou sobrinha ser tratado assim. 
Eu tentei dizer o mesmo à mamãe alguns meses atrás e ela ficou um mês sem falar comigo. 
Não consegui dizer a ela tudo o que eu queria (pra falar a verdade, continuo sem conseguir), mas gostaria de tentar com você:
Leo, eu ainda sou a pessoa que brigava com vovó e papai quando eles diziam algo maldoso sobre você. Também sou a garota que ia ao cinema com você nos finais de semana e que ficou ressentida quando você assistiu Harry Potter e As Relíquias da Morte Parte II com outra pessoa no cinema (se foi com o Fábio ou com a Sandra, nunca saberei).
Eu sempre serei essa pessoa, da mesma forma que há algum tempo (anos, pra ser sincera) eu tenho noção de que sou alguém que não se importa com o gênero da pessoa por quem eu vou me apaixonar. Você pode achar que é viagem ou fase, mas não é. 
Eu só não quero precisar esconder as coisas. De ninguém. 
Perguntei como você conseguiu esconder um relacionamento, porque esconder o meu é angustiante. E eu não quero ter que fazê-lo. 
Sei que nossa família não reagirá/reage bem a isso. 
Sei que, provavelmente, você não reagirá bem também. 
Espero que uma informação não invalide todas as outras.

Um abraço,
Dani. 

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