90 days.

Clinicamente, necessita-se de noventa dias limpos para constatar que você não mais possui metais pesados, substâncias tóxicas - ou qualquer que seja o objeto de sua adição - em seu organismo. 

Não possuo noventa dias. Não possuo nem nove horas. 

Estou em uma contagem reversa: em vez de contabilizar os dias longe de uma situação que me fez mal, conto os dias que faltam até que esteja livre dela: 217. Ou 172, se eu considerar que já não estarei aqui em outubro. 

Tento deixar de lado o ressentimento que se agita em mim: como a pessoa mais velha, deveria ser aquela a dar o primeiro passo. Mas não é uma situação familiar, uma situação entre amigas ou uma situação com alguém que esteve presente na minha vida por muito tempo. 

Não é uma situação parecida com a que eu acabei de encerrar: o dia mais difícil da minha vida foi quando tive que dar adeus à minha mãe, por finalmente entender que ela não tinha o direito de dizer que eu não tinha o direito de ser quem sou. 

Nem cinquenta dias depois, comecei a fazer as pazes com a ideia de dar adeus a outra morada. Agora, porque ninguém tem o direito de me dizer que não tenho direitos. 

Ainda não tive tempo de processar a primeira saída: o contato não foi encerrado por completo, de modo que permaneço sendo o ponto de apoio burocrático, tendo sido exonerada de todos os outros. Essa dinâmica reforça uma relação de dependência ao mesmo tempo em que é um bote salva-vidas: tenho contato com minha família, ainda que não seja da forma que eu quisesse. 

Essa saída foi eclipsada pelo planejamento da próxima, porque o teto que me abriga não é meu lar. E enquanto eu deveria poder processar e sentir, tenho que permanecer com a guarda levantada, batendo o pé sobre direitos inerentes ao ser: privacidade, respeito... 

A uma partida soma-se a outra. A analítica em mim - a impulsiva, a que busca soluções práticas - gostaria de assinar um novo contrato. No entanto, retornamos a uma conversa do final de dezembro/começo de janeiro: por minha causa, outras pessoas tiveram que se mudar. E se eu saísse agora, esse seria mais um ponto a ser usado contra mim. 

O que eu gostaria de dizer é que o fato de ter proposto uma república (ênfase no termo, caso não conheçam o estilo de moradia) é que eu não me torno responsável financeiramente ou por montar a casa para que façam o que bem quiserem. 

O direito de uma termina onde o de outra começa. 

E meu direito não começou. Ou foi pisoteado em algum momento. 

Eu preciso de um lugar pra morar, então engulo. E não quero sentir que deixei alguém em dívida, então aguento. 

Engarrafo o ressentimento e a insatisfação. Engarrafo a tristeza, o coração partido e a dor de ter deixado minha mãe e o lugar que verdadeiramente foi meu lar pela maior parte da minha vida. 

Um dia, terei um lar. Nele, sentirei todas as coisas. 

Agora, 

engulo. 

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