Setembro, 07. 2023.

Nas últimas sessões de terapia, levantei que me sinto tóxica. Sinto que eu, enquanto alguém que está constantemente desenhando os limites, reforçando as barreiras, verbalizando incômodos, sou uma pessoa que está podando outras. Nessa relação que se estabelece, me vejo como a agressora.

A visão que as duas pessoas que sabem da história têm de mim é diferente. Eles acham que eu engulo demais, aguento demais, sou compreensiva demais. São duas personalidades muito diferentes, e por isso eu evito falar sobre minha vida pessoal com os outros: para que essa divergência de opiniões não aconteça. Fico com o meu lado.

Passamos então a falar sobre por que eu seria tóxica e quais são os papéis dentro de um relacionamento e dentro de um relacionamento tóxico. E como eu me sinto aqui, hoje?

Esse foi o momento da catarse e o momento em que eu comecei a chorar. Respondi que "não sabia" à psicóloga, mas eu sabia, sim. 

Há dois pontos que me fazem voltar a esse assunto nas sessões, dois pontos que não foram curados. O primeiro é que eu me sinto louca, o segundo é que eu me ressinto de você. Eu me ressentiria da sua família, mas não possuíamos uma relação para que eu esperasse algo deles. 

Em todas as vezes em que eu disse que aquilo não era normal para mim, não era como eu me sentia confortável, era um limite e você disse que era normal para você, não via problema, não era por mal ou eu estava exagerando, eu me senti louca. Passei a me questionar e a questionar os meus princípios pois, afinal, só não era normal para mim. 

Passei a olhar para mim como a pessoa que queria achar problema e que estava tornando a sua vida difícil - daí ficar em silêncio diante de falas da sua família, daí pensar que "ela só esqueceu" nas inúmeras vezes em que não fui comunicada ou consultada sobre decisões referentes à casa e a visitas, daí até hoje não ter questionado sua irmã sobre violar mais um combinado. 

Passei a olhar para mim como a pessoa que estava dificultando a vida de todos, passei a me isolar mais. Essa já não era a minha casa - e, até hoje, às vezes não parece ser. 

Ainda me sinto louca. E fico questionando a minha realidade. 

No segundo ponto, eu gostaria de perguntar: a minha família já fez algo contra você? Não contra mim, não sobre não aprovar nosso relacionamento, mas contra você?

Porque a sua fez. Diretamente. Eles apoiam um relacionamento homoafetivo, só não respeitam os limites do outro. E em todas as vezes em que eles me feriram e você assistiu, tentou justificar, ficou quieta, eu entendi que não teria alguém que lutaria comigo. Então eu me ressinto de você, da sua postura, da sua inércia. Eu me ressinto por você ter me atropelado quando eu queria falar por mim, eu me ressinto por você ter sido conivente, eu me ressinto por você só ter conversado sobre limites após eu ter desenvolvido um transtorno alimentar. 

Mas, então, eu me culpo por esse ressentimento, porque você nunca fez nada conscientemente de estar me ferindo. São as suas boas intenções contra os meus sentimentos. E, aqui, eu me sinto louca novamente.

Como eu me curo aqui?

 

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