exile (com fundo de "this is me trying")
à Jô,
porque eu gostaria de ter usado mais palavras ontem, mas não consegui.
Você me disse, ontem, que se pergunta se a minha vida não seria melhor sem você. Pretendo respondê-la propriamente agora: não existe melhor ou pior. Existe o diferente. Como você "mede" uma experiência sem ter acesso a ela?
Por isso, seu pensamento não é justo com nenhuma de nós, e é um pensamento que eu afasto veementemente.
Pensar que minha vida teria sido melhor caso você não houvesse entrado nela invalida todas as coisas boas que vivemos: os momentos de cumplicidade; as risadas vindas da boca do estômago por alguma besteira dita antes que pudéssemos tomar café da manhã num domingo; as viagens; os momentos que passei pensando em como montar o melhor presente para você; as conversas sinceras e banais sobre a nossa rotina; as provocações diante de jogos de tabuleiro (sua cara de frustrada sempre que perdia no dominó, e de triunfante sempre que ganha no rummikubi)...
Minha vida não teria sido melhor sem esses momentos, Jô.
O que acontece - e como é ilustrado pela tatuagem em meu braço - é que momentos bons não vêm sozinhos. Muito aconteceu, muito que poderia ter sido evitado caso nós fôssemos mais sinceras, mais assertivas - mas, novamente, do que adianta olhar para o passado e pensar "e se?"? A historiografia não trabalha com possibilidades e a ciência humana nunca terá um resultado possível de ser previsto como uma equação matemática.
Também sinto muito por não saber dizer o que podemos fazer para melhorar a relação nesse momento. Ontem, despejei em você informações sobre a minha terapia que sei serem sensíveis para você -- você se abriu sobre o seu medo e, cá estou eu, expondo um problema sem trazer junto a solução.
Continuo repetindo para o meu cérebro que preciso pensar nisso: preciso de conclusões, sugestões, ferramentas, coisas que podemos fazer (individual e coletivamente) para que funcione, porque não quero abrir mão de você. Em vez disso, sinto estar quebrada (mental e psicologicamente).
Nas últimas 48h, eu não consigo identificar se estou em meio a um episódio depressivo, uma crise de ansiedade prolongada ou burnout (ou os três juntos). Sei que estou exausta mental, física e psicologicamente.
Estou tentando não estar.
Então essa é uma resposta digna e um pedido de desculpas, porque temo abrir a boca e entrar em outra crise de choro, entregando informações incompletas e precisando de consolo de novo.
Terei outra sessão na terça-feira. No fundo, quero melhorar. E estou dizendo a mim mesma que a desesperança que sinto e expresso no momento (em relação a mim, não a nós - porque quando penso em desistir, é sempre de mim) passará em breve.
Espero que faça sentido para você.
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